Aos 77 anos de idade, com o 9º grau da faixa-vermelha de Jiu-Jitsu, o grande Mestre Deoclecio Paulo, ou apenas Deo, nasceu e foi criado no subúrbio do Rio de Janeiro. Desde cedo tendo contato com as artes marciais, o Mestre Deo teve a chance de ver pessoalmente a evolução da arte suave ao longo dos anos, e contou para a TATAME, em entrevista exclusiva, o que mudou desde os anos 40 até hoje, mas sabe que ainda há um longo caminho a se percorrer. “As federações deverão apresentar suas sugestões bem fundamentadas, para que o atleta de Jiu-Jitsu seja tratado em igualdade com os de outras modalidades”, diz o mestre, que contou sobre sua vida nas artes marciais, falou sobre a sua motivação, seu trabalho com o Jiu-Jitsu no Exército e muito mais na entrevista que você confere a seguir.

 Quando você começou no Jiu-Jitsu, nos anos 40, a história era muito diferente do que é hoje. O que mudou de lá para cá a seu ver?

 


Era muito diferente, principalmente no subúrbio de Bento Ribeiro, com todas as suas dificuldades. O tatame era de esteiras e coberto por uma lona de caminhão. Depois veio o tatame de palha de arroz. Os quimonos eram feitos de sacos de farinha de trigo, alvejados. O professor Fadda costurava na velha máquina para os seus alunos. As competições eram feitas de comum acordo com seus professores. Tínhamos os campeonatos carioca e o suburbano. A Academia Fadda fazia muitas apresentações nas favelas, igrejas e clubes. O Professor Fadda se preocupava muito com os deficientes físicos e os paralíticos, colaborando com o Jiu-Jitsu como um auxílio em suas recuperações. O destaque nessa iniciativa foi o “Torpedo”, faixa-preta, lutador sem as duas pernas.  Mudou muito com a fundação da primeira Federação. Na presidência o Mestre Hélio Gracie e como vice o Mestre Oswaldo Fadda.

O que falta para a profissionalização do Jiu-Jitsu?
Organização em todos os níveis. Uma atuação mais presente por parte da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu. As federações deverão apresentar suas sugestões bem fundamentadas, para que o atleta de Jiu-Jitsu seja tratado em igualdade com os de outras modalidades.

Como você passou de atleta a professor de Jiu-Jitsu? O que te motivou a passar os ensinamentos recebidos para outros?
Como militar, era constantemente transferido de regiões. Quando chegava na cidade, montava um local para difundir o Jiu-Jitsu. Em algumas cidades, como Marquês de Valença, no Rio de Janeiro, o Jiu-Jitsu era uma novidade. Montei a Academia Valenciana de Jiu-Jitsu, na sua via principal – Rua dos Mineiros, em frente ao Hotel Glória. Em Resende, também no Rio, no Colégio Olavo Billac em frente ao portão monumental da AMAN. E no quartel, no horário da Educação Física, montávamos um tatame com colchões, cobríamos com uma lona e treinávamos em um grupo de militares. O maior interesse naquela época era o de praticar a chave de perna e a mão-de-vaca, que o Professor Fadda divulgava bastante. Como os Gracies não aceitavam por acharem que era uma grosseria, era motivo de curiosidade e interesse de alguns militares, que eram seus alunos, conhecerem essa finalização.

E hoje, qual é a sua maior motivação?

É constatar o crescimento do número de crianças, jovens e adultos interessados no aprendizado do Jiu-Jitsu, como forma de defesa pessoal e de competição.

Você teve, por muitos anos a sua academia no Rio de Janeiro. Como foi essa experiência?
Sim, a minha academia – Academia Deo de Jiu-Jitsu -, era localizada na Rua das Camélias, 32, na Vila Valqueire, no bairro de Jacarepaguá. Foi uma experiência muito boa, pois, por ocasião de minha transferência para Santiago, no Chile, foi emocionante essa minha despedida. No dia de meu embarque com a família, fui surpreendido com alguns carros, com pais e alunos que me acompanharam até ao aeroporto do Galeão.

Enquanto oficial do Exército, você foi obrigado a servir na Embaixada Brasileira no Chile, e acabou lecionando no Clube de Sub-Oficiais do Exército Chileno. Como foi essa experiência de ensinar Jiu-Jitsu para oficiais?
Os sub-oficiais tinham interesse maior em aprender a defesa pessoal e assim em algumas ocasiões aconteceu.

Que legado você acha que deixou para os praticantes e amantes de artes marciais?
As boas ações jamais serão esquecidas. Fui surpreendido, neste ano de 2010, ao receber um futuro aluno, policial federal, transferido para Brasília. Durante a entrevista e ao lhe perguntar se já tinha tido contato com Jiu-Jitsu, ele me respondeu, sim!  Fui aluno do Deo na Vila Valqueire, quando eu tinha sete anos de idade e hoje aos 46, desejo voltar à prática dessa maravilha que é o Jiu-Jitsu. Isso foi muito gratificante!

Gostaria de mandar um recado?
Se você escolheu o Jiu-Jitsu para a sua prática, faça-o com responsabilidade e dedicação! O seu adversário não é um inimigo, apenas ele está lhe dando uma oportunidade para que você tenha condições de provar a você mesmo do que é capaz!